quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

AMOR MAR DE MISTÉRIOS


Nesse biombo cerrado da ilusão
recolho as pétalas de sombra
que me sobram

retomo o dia em busca de um instante solar
sem intempestiva paixão
só ressonância de adeus
uníssona à dor

entre brumas de silêncio
dissimula-se a perda

sem o olhar luminoso do sol
 a cor é rude penumbra de nós
 equivocada cor me deu retinas do sonhar
veredas abertas e avessas aos pés

o mar é mistérios
nós ondas em febre que veleja
águas breves de espumas
e outras tantas que sangram o arrebol
mas todas anoitecem águas
paradas e frias
e silenciosas
e salgadas
e sós.

        Gilberto Felinto

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

DAS SOMBRAS E ASSOMBROS

Fora de mim
o império do mundo
 a amoldar - me à moda
ao modo hipnótico de suas matizes.

vivo nem sei se vivo
- nos fragmentos de suas paragens -
como um fantasma esquecido
num tempo sem memórias

- em sua casa de concreto -
dorme o inviolável silêncio
das angústias lajotadas

em nuvem e brisa me desenha
o dia de sonho

me esconde o véu,as cinzas e silêncio,

depois, cinge - me a vida,
singelamente derrotado.

o tédio ata as mãos da tarde
pesa o viver sobre os meus ombros

no coração um sol que arde
e a ilusão sob os escombros

me falta a sua claridade
me sobram sombras e assombros.

                         Gilberto Felinto.

SAL DO TEMPO


O que faço entre penumbra e luz
sem minha transparência ?

alheio a meus contornos
cortejo a luz do instante

do afeto do afago

do que o fogo deixou em mim
antes da senzala e das cinzas.

se a mesma luz que se ensimesma
entre minhas ruínas
foi clara evidência da cor

diviso ao sal do tempo
um céu de amor.

                     Gilberto Felinto

quarta-feira, 15 de abril de 2015

GOTA DE EXISTÊNCIA

A brevidade ecoa
nos meandros do ser
como uma víbora que instila a verdade
- madrasta vil do sonhar.

- a verdade é a insônia de Morfeu -

e inocula a ordem
nas veredas da rua,

e dá ciência a cada verdade
escondida em outra verdade contida
no seu árido saber,

e dorme no santuário dos olhos
como um anjo sem asa combalido.

O sonho exita
quando a febre
pari a evidencia da dor.

Protesta o caos -  a condoer-se do delito do instante-

Que tempo é esse de ponteiros estreitos
a bailar sua dança da morte
sobre minha intempestiva chuva de sonhares?

E o instante se assoberba com sua capa de cristal ,
frágil bailarino estreito e roto,

Pestaneja a breve luz
 e refunda uma memória
de um tempo que tive entre outros tempos que se evaporaram

Bebe uma gota de existência
a mais
no estéril cálice da cavilosa utopia
-  "o pecado  "- e mora no limbo das tentações
com sua fome intemporal

habitamos o instante
a festejar o vento

e depois de um brinde a Bacco

me resta um voo sem arestas
rumo a compaixão do sol.

                                      Gilberto Felinto


O RITUAL DO TEMPO


Que jardins pode semear na alma
o dócil coração do dia
débil do veneno estreito da espera?

Sua insular poesia
é um dócil vira-latas
revirando o lixo das ocasiões

Seu talismã são olhos de águia
envenenados no desejo de rapina

Sua solidão de sombra
- refratária ilusão do existir -
suas horas bárbaras consumidas
no sobejo decimal do beijo

sua carne atormentada 
cumpre o ritual do tempo
seus outonos de outros
suas primaveras e eras e eras
cruamente engolidas pelo relógio

somos o dia de espera...
nossas horas são pupas ávidas
sonhando o livre voo das libélulas.

                                     Gilberto Felinto.







quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

GRITOS AMENOS

Se o retiro do silêncio
te sufoca e amordaça

veste a nudez da palavra que te dá conforto
despe a razão do sentido que te vocifera

reja o cio dessas vozes que represam o canto
nas cisternas rasas das almas amargas

-cante a dor incontida das que reverberam-

fale os falares fictícios desses  tolos amantes
e acredite na incerteza vã de suas travessuras

beba o céu de pureza das almas impuras
jamais fel de cicuta shakespeariana

não se crispe ante a pose dos positivistas
não se curve ante a posse dos  impossuídos

o silêncio só emudece quem nada tem a dizer
diga gritos amenos... a menos que queira dizer o indizível.

                                     
            Gilberto Felinto


AOS PORQUÊS

Sempre me entre-tenho entre porquês
e acedo à escola das corriqueiras coisas

apreendo o calor e o aquiesço
quando à flama fervente
a língua péla

quando aguarda aguardente
a dor que não vela

e o amor se faz semente que não grela.

                          Gilberto Felinto