CONTOS


O Citadino e o Suburbano


     Primo Severino é homem da roça. Veio de longe com sua pré-história. Resíduos de um sapé com trilhas estreitas partindo galhos sequiosos de velhas juremas e crianças papudas assistiram o seu nascimento.
         O medo do desconhecido, as lembranças do rio Banabuiú em tempos de enchente, os mistérios da selva de pedra, vinham como flashes em sua mente. Estradas, divisas, folhagens. Tudo flertava seus olhos - admirados da janela do ônibus -, com o mundo em permanente movimento. Correr léguas naquelas terras longínquas, ouvindo histórias de mundos distantes e suas inexistências.
         Havia enviado uma carta a seu primo Wesley Ramon, adolescente letrado, com muitos dotes, entre os quais, o de armar ciladas para os outros.

“Santa Crus do Siridó, deiz de maiu deçe mesmo ano.

Antes de lhe manda Eça carta, acaitituei mutcho aqui cus meus miolo. Será que inscrevo, será qui num inscrevo? No frigir dos ovos da pata, primo, eu num pudi me conte. Inscrevo cum ecas umilde palavras, pru mode cidizê qui preciso cunhecer Eça cidadi. Um caipira nunca devi de renega seu lugá, mais no frigi dos ovos da merma pata maninha, num guento mais fica imaginando esse mundão de preda qui vocês vivi.
Inscrevi duas carta pro modi aqui chega primeiro lhi avisa qui chego no dumingo de ramu, as dispois de meio dia, no ispreço da boas esperança.
Mi dissero, qui vois micê é chei de num mi toqui, todo fesquin, mais nun creditei innada disso.

Um abraço du primo du campo,Sivirino.

         O terminal estava lotado, passou entrecortando a multidão atônita, cada qual a seu modo tentando se localizar. Não foi difícil encontrar Severino. Era como se colocar uma abelha numa população de moscas, vinha esbarrando em tudo, com ferroadas do cabo da peixeira quase à mostra,abalroando todos e já no último degrau tropeça e cai estatelado à sua frente.
         Tinha o modo de falar dos roceiros. A vomitar palavras num ritmo estonteante. Duas ou três ao mesmo tempo, como se tivesse a língua bífida das jararacas do sapezal.

         Havia colocado um terno velho azul marinho com gravata de bolinhas, e uma flor no bolso. Calças mais curtas que suas dimensões mostravam meias lilazes e as canelas finas como galhos de juá. Nada assustador diante de tantos imigrantes espalhafatosos que costumeiramente transitavam nas ruas.
         Seu jeito dócil de amatutar-se escondia a astúcia e malícias próprias de um sapezista.
         - Que diacho sô! Cuma cresceu o menino Esly. Ta mais cumprido que dia de fomi.
         E deu um abraço de estalar costelas, sacudindo como se sacode saca de arroz para socar a palha.
         Primo Wesley não se conteve em olhar detalhadamente e já ardiloso, comenta:
         - Primo vamos fazer uma transmutação no seu New Apear.
         - Óia Primo, se mexe na minha bunda num mi resposabilizo. Já mi avizaru dum monti de travesti daqui de Sum Paulo.
         - Calma primo. É só mudar um pouco a sua aparência.
         Era um salão badaladíssimo. Veio um cabeleireiro rebolando mais que jibóia em tempo de cio, e os interpelou:
         - Pois não! O que os gatinhos desejam.
         Tentou correr mais foi impedido.
         - Precisamos de uma mudança radical.
         - Deixa comigo docinho. Vou fazer do olhar alheio uma lente de aumento para o seu ego.
         - Ô Primu! Esse cara num mi viu mijando. Meu ego não é tão pequeno assim não.
         Severino sai de lá um híbrido de Michael Jackson com Falcão.
         Primo Wesley diz: “Falta o vestuário, vamos ao shopping”.
         E lá severino comenta:
         - Pra tê que Assubi essa iscada rorante, haja ovo de galinha caipira, sô.
         Na genialidade diabólica de sua infâmia cauculista primo Wesley, leva-o num festival de roqueiros, põe-lhe uma jaqueta jeans com adesivos emblemáticos de rock pauleira. Calças rasgadas com botões de prata nos lados, cinto com fivelas largas e colares de prata com medalhas grandes.
         O andar ainda é o único trejeito que abalava a carapaça de Blad Hander. Nada que uma boa aula de soltar os ombros, coçar os ovos com agudeza de gozo, e falar manso como surfista em campeonato, não desse jeito.
         - Ô  primu, eu sei a mode comu é. É só imitar o Zé tem-tem quando abre as perna pra infrentá boi brabo.
         - Cara de machu, corça o cuião com o anerlá insquerdo e dá uma cusparada de um quilo de baba de fumo pelos canto do beiço.
         Em sua ardileza maquiavélica, primo Wesley o leva a uma dessas boates quentíssimas, tinha espelhos por todos os lados, strip-tease, um strober que faz com que todo mundo pareça em câmera lenta e muita fumaça.
         E comentou:
         - Pareci aquelis prédiu qui o bin ladi istorô lá nos istranja.
         - É miozim.


         Nessa hora começa uma briga no salão provocada pelo grupo dos motoqueiros “Lobos da estrada”. Todo mundo apanha (até primo Wesley). Mas devido parecer um deles Severino é o único que é poupado.
         - Os cara tão arrevortados, pensei até lhis dá um cascudão na tampa dos miolo.
         Frustrado no seu intento, o citadino resolve trocar a roupa com Severino para não correr risco. Entra numa boate ainda mais agitada, a Over Night. Lá já entram com cascos de garrafa interpelando suas testas. A porrada come, é a turma que apanhou dos motoqueiros na outra festa, e haja peia em primo Wesley, confundido com motoqueiro. Severino novamente sai ileso.
         - Parecia uns gringo strangeiro, maiz puto dento-das-carça.
         Já no hospital com os ligamentos do joelho rompidos, quatro costelas quebradas e um traumatismo leve no crânio, o citadino recebe um bilhete do sapezista.
         - Óia eu de novo.
         - Primu Esly, num mi Levi a mar, mais discunfiu qui ocê quiria arma pra eu.
         - To viajandu pro modi num lhi dá mais uns tapa na fuça.
         - Recuperi e venha mi visitá, que aqui no lajero tem muita cobra braba qui gosta de sagüi de menino fresquin assim como ocê.
         - Di seu primu Sivirino.






Uma Visita Ilustre


         Chegava àquela noite, em Santa Izabel, Javé um senhor de gorro vermelho e cabelos agrisalhados, embebido em sono, aparentava uns 40 anos e vestia camisa simples de algodão com calças frouxas de tecido grosso. Senta-se na praça da Igreja matriz e enquanto aplainava com suas mãos uma cruz de madeira é abordado por quatro trombadinhas que furtam sua carteira rapidamente.
         Javé é um velho andarilho vindo de terras longínquas, com histórias de mundos distantes. É fazedor de amanhecer e benzedor de águas. Via e ouvia inexistências.
         Dorme ao lado do grupo de pinguços da praça, mas diante do acontecido, nem pode lhes pagar um pouco de cachaça. Ao amanhecer já não estava mais lá e quando o primeiro papudinho abre a torneira da praça percebe que está jorrando vinho da melhor safra.
         Chegando à feirinha do centro, é logo convidado por um grupo de feirantes para jogar buraco e diz: “Einstein disse que eu não jogava dados com o mundo, não vou negar essa tese. Mas baralho, eu acho que posso”.
        
         Não foi necessário usar sua onisciência para ganhar todo o dinheiro na jogatina de sábado.
      
         Dirige-se ao salão do Berí para cortar o cabelo e impressiona-se com os trejeitos do rapaz. Sente que deveria ter pensado algo além de Adão e Eva convencionais. Deveria ter imaginado que milhões de anos acabariam corrompendo o DNA cromossômico da espécie.
         Veste uma calça de sarja marrom, sapatos de couro, camisa branca (recém-comprados na loja Stillus). Pega uma Bíblia surrada por tantos anos de uso e vai ao culto da Igreja protestante.
         A única coisa que o chamou atenção foi uma ruiva com tailleur bege, sapatos de salto e bicos finos. Cabelos longos escovados e alisados, batom vermelho-carmim, e um puto de um carro importado.
         Ela se dirige ao altar e fala: “Jesus é uma coisa quentinha”.
         Não se ofende, lembra Lutero: “Cada homem é sacerdote de si”.
         Só se ofende quando alguém passa e leva todo o seu dinheiro. Mas, imagina que deve ser uma nova forma de abordagem, igual a dos trombadinhas só que, as navalhas aqui, são palavras hipnóticas.
                      
         Ouve na saída um senhor gritando em voz alta e como que possuído:
         - Diante da dor, ostenta a cura. Frente à miséria arvora-se com a bonança. Da escuridão faz a luz. Entre os famélicos é a catarse, a esperança. Nele, tudo é completo. O mundo é extensão de sua figura. Todos queiram ou não, estão obrigados a contemplar sua venerável figura.
         Deus passa por perto e sussurra baixinho:
        - Menos, menos...

26

         Ele também odeia puxa-saco. E dá um toque leve no ombro, fazendo-o imediatamente cair em sono profundo.
         No domingo cedinho vai à Igreja e procura um lugar na fileira de trás. Sente-se um pouco constrangido, pois não consegue acompanhar tanto - senta, ajoelha, levanta e teima e sua. Gostou dos cânticos, embora, houvesse muita gente desafinada.
         Na saída alguém diz:
       - Deus está aqui!
         Assusta-se, mas percebe que era mais um desvario. E fala em voz baixa:
        “Eu estou em todos os lugares, na Igreja ortodoxa, nos rituais religiosos do antigo Egito, na mancha lado a lado com os evangélicos neopetencostais, nas fascinantes festas judaicas, nos mistérios da umbanda e muito mais. Sempre com propósito de respeitar as diferentes versões do sagrado, de contribuir para a tolerância religiosa. Reencarnação ou ressurreição, paraíso ou Nirvana, não importa. O desafio maior é admitir que, na base das metáforas e das imagens, das explicações e justificativas está a fé”.
        
         Naquele instante um homem esbarra em Javé quase o jogando ao chão:
        - Desculpe. Estou atrasado para pegar o ônibus para cidade de Bujaru.
        - Não se preocupe meu filho, mesmo quem cresce no pior dos mundos, ganha a chance de novo renascimento quando a conta cármica é zerada.
       
         Dirige-se a Caraparu. Sente-se bem ao entrar  em contato com a natureza que criou. É preciso agora encontrar uma alma pura para entregar os dez mandamentos do izabelense. Encontra o bolacha que queria vender para Javé uma canoa furada com o remo quebrado e é logo descartado.

         Na manhã seguinte encontra o coroné, um genuflexo, de mãos encarquilhadas e olhos crispados, que se contraem esporadicamente e ameaçam de expulsão as pupilas assustadas. O mesmo carregava o lixo da beira do rio com um verdadeiro amor por sua labuta. E Deus sem o arbusto de sarça quente, ilumina por instantes a mente fraca daquele bandarra velho, abrindo em fogo um tronco de jaqueira.
       
         - Meu filho, eu sou o teu Deus e aqui estão as minhas leis, ide para esta terra que tem leite e mel.
   
         Entrega-lhe os mandamentos escritos num entalhe de jaqueira.
   
Os dez mandamentos do izabelense

1. Não elegerás mais vereadores jocosos, caricatas, indolentes e aberrantes;
2. Não escutarás músicas idiotas em acústicas estrondantes: menos decibéis e mais neurônicos;
3. Lembra-te que o sábado é sagrado o lance do Reluz Clube e o domingo no Porto de Minas;
4. Se cobiçar a mulher do próximo e vice – versa, não o faça com desdém;nem quando o dito cujo estiver próximo.
5. Não matarás. Lembre-se: você não está na Líbia;
6. Não levantarás falso testemunho. O Fórum já está lotado;
7. Não furtarás, isso é papel dos bancos e Igrejas;
8. Não darás mais de dez voltas na sarjeta no domingo à noite. A partir disso é teste de Cooper;
9. Não vomitarás o sopão do Gel. É o único antídoto contra a ressaca;
10.  Por fim, seja um pouco menos izabelense.

         E subiu aos céus diante dos olhos daquele humilde servo caraparuense.








Memórias Póstumas de Um Izabelense
(In memorian a Adécio Miranda)


     Também dedicaria este momento aos vermes vorazes que nos sorvem a carne até os ossos ou às aves sarcófagas que se alimentam dos restos decompostos de animais mortos. Mas percebi o desfecho da vileza humana quando contactei os bípedes implumes que nos rodeiam, dia-a-dia sem suas máscaras habituais.
      Morri num belo domingo de sol, quando o dia parecia querer manter tépido o fogo da vida e as pessoas se entretiam com seus programas de lazer. Ouvi uma música distante que lentamente se esvaecia com as batidas do meu coração. Senti o corpo adormecendo até perder a noção de sua real dimensão, parecia estar no mundo não estando. Pessoas se moviam, o perfume das flores, o vento trepidando as folhas.
     Sempre imaginei a passagem para a morte como um túnel escuro com uma luz no final, onde o paraíso esperava almas fiéis ou o inferno e o purgatório contava seus adeptos.
     Era estranho, mas a aparente distância abissal entre o mundo dos vivos e dos mortos parecia tênue. Veio a lembrança da infância que me restava na memória com sabor de paraíso perdido; a adolescência tecida de sonhos, utopias e os propósitos altruísticos e projetos por realizar. Queria pedir colo a Deus e resgatar coisas boas. Mas, no fundo da garganta, um travo. As contas por pagar, a novela que não terminou... Meu time ia jogar no domingo à noite.
     Parei de ruminar lembranças mesquinhas, queria ter um apetite de absoluto, mas a consciência aguda de minha finitude angustiava e intrigava, mesmo que morrer seja um evento tão natural quanto nascer, temia enxergar assim, como um fato brusco, inesperado, inadmissível. Havia adiado planos (e perdões, declarações de afeto, decisões) no engano de que viveria eternamente.
     O mais incrível da morte era que minha percepção parecia intacta. Percebia que ainda estava ali no mundo. O beijo na face, o calor dos cobertores. E de vez em quando, um curioso abria meus olhos (para se certificar, eu acho) e  eu  via  lágrimas sinceras e falsas nos olhos transeuntes.
     Meu corpo acantoado na sala pouco iluminada. Eu profundíssimamente hipocondríaco. Um ar repugnante, um alento de morte nas fisionomias, nem parecia que o morto era eu.
     Percebi ali o valor da morte. Poucas buscas mexem tanto com o nosso senso de propósito neste universo - e com nossos medos mais profundos que a tentativa de compreender a morte. E ninguém mais que o morto percebe o caráter das pessoas quando se despem da pele de cordeiro e mostram os lobos vorazes que as fazem estranhas a si mesmas

     Numa daquelas vezes que abriram meus olhos, tentei apropriar-me da realidade circundamente. Estava na Igreja Matriz, num caixão estreito cujas dimensões me esmagavam. Do lado, o padre com seu véu umeral entre cibórios com hóstias consagradas e atrás dele o iconostásio homenageando apóstolos e santos.
         Falou algumas palavras em latim (coisas que ele inventava na hora):
         - ES SAFADUM NUM DINHERO DEST A EST PADRUM.
        
         Os rostos não pareciam nada sofridos. A maioria de nossas emoções gera sinais involuntários, cuja função é justamente mostrar aos outros como estamos nos sentindo, mesmo quando tentamos disfarçá-los. Para saber como uma pessoa está se sentindo basta prestar atenção nos sinais enviados pela face.
     Se os cantos das sobrancelhas se levantam e se encostam, surge uma ruga vertical na testa - é tristeza mesmo. Se os lábios se apertam levemente e ficam mais estreitos - é raiva.
     As pálpebras superiores se levantam e as inferiores levemente contraídas - é medo.
     Virar a cabeça, o lábio superior se levantar ao máximo - é nojo.
     Mas percebi que a maioria tinha o queixo elevado enxergando-me por baixo do nariz - era puro desprezo.
     Estava feliz em ver aquelas garotas lindas (algumas até choravam). Pensei se não estaria no paraíso islâmico com 70 virgens belíssimas que me cumulariam de prazer (temi que me achassem um morto assanhado).
     Ela chegou fascinante com um decote que mais parecia um desfile de moda que um velório. Dirigiu-se até o caixão e pegou minha mão (se não estivesse morto, juro que morreria). Sempre desejei aquela garota.
         Beijou-me a testa e disse:
        - É pena que não nos conhecemos melhor.                          
         Aquele foi o pior momento da minha morte.
         Depois veio o amigo Orlêmico que era do time rival, me cobriu com a bandeira do Remo e ainda fez questão:
-         Seu time perdeu, caiu para terceira divisão.
         O próximo, careca, o dono do bar, ex-goleiro do time da cidade, falou:
-         Era um bom homem!
         Aí sussurrou baixinho: "Safado... morreu e não pagou a conta”.
         Na fila, Serjão uma figura folclórica da região. Chegou e disse:
         - É meu amigo. A viúva está linda. Agora que você se foi... Eu tô na área, se derrubar é pênalti.
         Não percebi a presença da turma do bar. Mas ouvi o comentário “A galera já foi para o Caraparu beber o morto”.
Naquele momento um cheiro de cachaça impregna o ar. Senti-me mais porre do que morto.                  
         Um bêbado entoa um discurso inflamado:
         - Era um home.e.em de muit...as qua...li...da...des. Poderia ci...tar algumas mas no mo..men...to não lembro nenhuma.

Neste momento tomba em direção ao caixão e dá uma vomitada dentro. Daí as pessoas carregam o bêbado e põe-no para fora.
     Uma daquelas garotas belíssimas pega um pano molhado e começa a limpar meu corpo, vai do peito ao umbigo, quando me vem aquele frio na barriga como se tivesse borboletas voando em meu estômago. E involuntariamente a minha calça começa a avolumar-se. A menina se assusta tira a mão e nada comenta.
Nesta hora chega o prefeito com uma comitiva de puxa-sacos. Também não polpa garganta e palavras de elogio tecidas da mais alta eloqüência:
         - Cidadãos e cidadoas izabelenses. Gostaria de aproveitar o ensejo desta festa fúnebre para justificar os salários atrasados, o caos em que se encontra a saúde e a educação... E blá - blá - blá.
Era entediante até para o morto.
Foi o primeiro a pegar a alça do caixão. Ele com certeza adorou a idéia de enterrar mais um funcionário público. Também comentou baixinho:
         - Quem dera fosse um genocídio. Um professorocídio. Assim, não teria que pagar esses babacas.
         Do outro lado do caixão a viúva fez questão. Tentaram explicar que era pesado demais para uma mulher. Não largou a alça, sua força parecia triplicada.
         Remoeu baixinho suas mágoas:
         - Lembra da Vânia, vou jogar 100 gramas de areia por ela. E aquela ruiva lá da Santa Lúcia vou jogar mais 100 gramas por ela também.
         Serjão que segurava a alça de trás comenta: - “Teve também a Edvirges lá do Bairro Novo.”
         - Que canalha!
         Aquilo me causou indignação.
        
         A imobilidade me prendia àquele caixão. Respirei fundo, fiz uma força descomunal e de repente, lá estava eu sentado no caixão. A gritaria foi total. Gente correndo para todo lado. O Dr. Gervásio que segurava a outra alça atrás do prefeito (e que obviamente havia atestado a minha morte), gritou:
         - Calma! Calma! Ele é cataléptico.
         E explicou:
         - Ele estava num estado de rigidez muscular cérea chamada catalepsia.
         Olhei para os lados, não havia mais nenhum de meus algozes. Todos fugiram temendo a minha reação. Mas, diante do fracasso da minha morte, não desfaleci. Peguei a garota bela e o primeiro ônibus para o Caraparu. Fui beber o morto.
-         Afinal!  Não é todo dia que se morre.





Criacao Hightech
            
       Desde que o mundo é mundo, sonhamos com o dia em que toda realidade caberá numa formulação cientifica, simples e elegante – onde existirá uma teoria de tudo; imune às contradições e paradoxos.
            Foram cinco longos e fatigantes dias de alquimia da criação – Amônia, CO2, Nitrogênio, Oxigênio, e outros gases compunham a atmosfera primitiva. O universo até então e seus quarks, múons e pósitrons, cada partícula, cada campo de força, e até mesmo o espaço-tempo derivavam suas funções, seu sentido e sua existência de escolhas binárias, os bits. Deus havia criado o software de todas as coisas, mas sentia-se sozinho.
             Estava no seu labor criacionista, incansável. As dificuldades técnicas e as contradições experimentais não o desanimavam. Já havia abandonado as velhas quinquilharias, priscas máquinas de impressão e vetustas máquinas de  replicação animal.
            Havia reunido o melhor da tecnologia digital para criar o cyberespaço em que viveríamos.
            Um monte de computadores ajudava a inventar uma realidade virtual perfeita. Queria fazer Adão e Eva em uma versão mais hightech, como personagens holywoodianos, com um belo upgrade da cinematografia virtual.
            Na sala nanorobôs, cheios de hélices, alavancas e garras, guiados por computador, traziam as ferramentas para a construção dos primeiros humanóides.
            Havia encomendado na loja de engenharia de tecidos, órgãos sintéticos com certificado de garantia. Um substituto bioartificial de pele, com derme e epiderme. Córneas com biomaterial óptico transparente de boa adesão.Polímeros de aminoácidos para músculos e mucosas. Pedaços de miocárdio capazes de pulsar e biorreatores, maquinas semivivas, produzindo células incessantemente.
            Usava luvas de neopreme com design ergonômico que em movimentos precisos colocavam sensores olfativos, chips de memória, câmeras que calculam o desvio de imagens, sobreposição, relevo e distancia dos objetos. Os traços do cérebro eram adaptados para circuitos eletrônicos com extraordinárias redes neuronais, dando traços como consciência, emoções e humor.
            Os primeiros cyborgs estavam terminados, robôs de ultissima geração, colocados no cyberspaço paraíso do Éden. E tudo estava perfeito, até o surgimento do vírus, “maçã do pecado”, que contaminou toda a rede celestial.
            Como castigo, Deus retirou toda a parafernália tecnológica que nos aproximava de sua imagem. E viramos frágeis humanos, em carne e unhas. As cores, os cheiros, gostos e emoções, sem o cérebro de metal, viraram uma grande ilusão.Passaram a ser ondas eletromagnéticas de cujas freqüências captamos e interpretamos a nosso modo.
          E fomos colocados na caverna “terra”, amarrados ao mesmo lugar desde a infância e onde tudo o que vemos são sombras do que está atrás de nós. E nem percebemos que estamos presos a um mundo de aparências que não refletem a verdadeira realidade.







Filosofia de Banheiro
           
           Certos momentos na vida de um homem parecem intermináveis. O acaso, as circunstancias do ambiente e a avidez da alma criaram médicos, profetas, idiotas, filósofos e loucos.
            Encontrava-se ali por acaso. Era vazio de conhecimentos e seu único intento era encontrar um banheiro. O saguão de filosofia parecia interminável. Quão inútil era seu propósito num lugar onde emanava no ar o cheiro do saber. Enfim, lá estava seu oásis, um recôndito escondido no fim do corredor, tinha na porta a inscrição “W.C”; o que, evidentemente, era ideal para finalizar o processo catabólico de sua digestão. Nome: Ernesto Platão Aristotélico de Aquino (sua mãe deve ter estudado filosofia).
            Senta-se como um rei em seu trono e observa aquelas paredes brancas rabiscadas com elucubrações a respeito da vida e da morte, do medo, das insatisfações e insignificâncias humanas. Sentiu um acréscimo de si mesmo, uma oportunidade única de contactar o universo do saber. A luz de Diógenes iluminava cada canto com um conhecimento profundo, sem datar o dia, expresso na parede como hieróglifos antigos. Decifrara ali os escritos de Platão e Sócrates, Newton, Freud e outros escribas da modernidade.
            Como um monge tibetano, meditando em seu claustro, passou a analisar aquele momento singular da vida humana do ponto de vista filosófico.
            Pensou para Platão, o banheiro era como o mito da caverna, passava-se horas fitando uma parede inerte e a vida não passava mais do que uma simples cagada.
            Na visão freudiana a defecação era uma manifestação do prazer de evacuar da fase anal da infância, não significando desvio objetal do libido, onde o orifício evolutivo dos deuterostômios passa a ser entrada e saída.
            No pensamento cartesiano a alma e o corpo seriam elementos separados, então aquele ato era do corpo, mas parecia às vezes que até a alma sentia os efeitos do odor.
            Bem que descartes poderia ter valorizado mais o corpo e ao invés de “Cogito Ergo Sum” Ter dito: “Cago, logo Existo”.
            No pensamento newtoniano toda ação tem uma reação de mesma intensidade e em sentido contrário. Achou melhor não aplicar este principio aquele momento.
            Achou intrigante aquele texto escrito num canto de banheiro, com letras pequenas à tinta vermelha. Mostrava os conflitos existenciais e de identidade, sofridos por uma mulher bonita no momento da cagada.
            Era uma abordagem psicanalítica chamada “Sindrome da Relação Interpessoal Eu-Merda”, nunca ouvira falar.
            Nesta visão a mulher espetacular, quase fada, tinha um afastamento do seu “Eu” por não admitir eliminar algo tão fético e impessoal. Mas havia uma técnica de tratamento, a qual publicamos na integra:
·        Ao sentar-se no trono, concentre-se nos grandes paradoxos da humanidade, tipo: Hidrogênio e Oxigênio, gases altamente inflamáveis que se unem para formar a água.
Depois, entre cada manobra de valsava (o momento de fazer força) inspire profundamente e repita três vezes:
·        Eu sou eu, merda é merda.
Caso você não se tenha convencido de que é você mesma, acredite, você não vale merda!
De repente, ouve-se um barulho à porta, vozes cochichando. Ernesto levanta-se, limpa-se, veste-se. E abre a porta (Necessariamente na mesma ordem).
            Há uma fila imensa de estudantes de filosofia, reclamando as horas de espera.
            Ernesto ainda inebriado pelo gás quase paralisante de sua flatulência filosófica vê a concepção fenomenológica do momento e declama em voz alta:
·        O peido é um fenômeno idiossincrásico do corpo bioplasmático!
E a galera retruca:
·        Mas que fede, fede!





O NEOLOGISTA

O mundo da política o fascinava. Nascera e crescera escutando as conversas de seu pai sobre o “processo de estagnação econômica”, “o sopro inflacionário” e todos esses dialetos do bom e velho politiquês tupiniquim.
Sua mãe passara toda  a gravidez escutando discursos políticos intermináveis e tediosos para despertar já no ventre sua vocação para a linguagem. E o pior, o resultado foi além das expectativas: ao invés do tradicional mingau, o bebê já falava “Traga-me aquela iguaria de consistência pastosa e gelatinizável”.
Mais impressionante foi o discurso na formatura da pré-escola: “Quero usar da minha magniloquencia para acusar este recinto propedêutico de fugir dos parâmetros ontogenéticos e perempitórios aprioristicamente”.
Seus pais tinham um orgulho imenso de suas habilidades linguísticas, até perceberem sua astucia na criação das palavras e sua vocação para o charlatanismo. Não era mais tempo; iria ser um bom político.
Outro dom do neologista era sua habilidade com as mulheres. Sussurrava versos que criava de repente:
“Espalhei flores de agapanto na terra submagmática de teus pés impúberes”.
Isto, até o dia que levou uma surra daquelas, do pai de uma das garotas quando declamava:
“Quero sugar dulçores de figo maduro de sua vulva peluginosa e provar o gosto acérrimo de sua secreção mucovaginóide”.
Na verdade, era só potoca. Suas falações tediosas faziam as garotas dormirem antes de chegar no ponto.

Enfim, abacharelou-se em charlatonologia e embusteirices.Chegava a hora de assumir sua vocação para a política. Havia estudado pouco, mas não precisava ser inteligente para enganar o povo. Seu pai era grande político da região, sempre altivo e orgulhoso de seu potencial para discursos eloquentes e criativos.
Quando eleito foi proferir o discurso de posse. A bandinha tocava o hino da cidade; fogos espalhavam centelhas no céu, acompanhados de estampidos que ecoavam para todos os lados.
Não se intimidou e falou fluentemente:
“Neste dia fatídico de nossa proboscelância e hermenêutica posse, serei lacônico sobre minha visão transcedentária... tendo o prazer de ter ao meu lado essa mulher (senadora) a priori bastante rebogulativa.
Aplausos. Cumprimentos finais.
Ela se aproxima dele e pergunta baixinho:
- Vereador, vereador! O que é uma pessoa rebogulativa?
E ele sorrateiramente responde:
- É uma pessoa um tanto quanto semiconscifláutica.







Paz na terra aos homens de poucas vontades
           

 Palacetes e palafitas, próceres e prostitutas. Soubibor é a fronteira de mundos diametralmente opostos. Muros medievais tentam em vão suplantar diferenças. Nas ruas, pessoas se digladiam, a saquearem-se, ultrajados pela dor. Uma horda de milhões de miseráveis, todos num barco à deriva e a mercê dos ventos. A maioria foi derrotada antes de vir ao mundo, outros nem chegaram ao primeiro aniversário.Individuos que raramente adoecem, disputam no lixo comida com ratos e baratas, dormindo em calçadas fétidas. Uma cenografia dantesca, só vista em filme com Mad Max, Laranja Mecânica e Cidade de Deus, com o inconveniente de que qualquer um pode ser o próximo personagem.
             A Praça da Paz é o epicentro de Soubibor. Nela trafega todos os dias uma legião de nômades cegos indo para lugar nenhum. As suas poucas vontades se perderam na arquitetura labiríntica e insondável do lugar.
            Nasceu na Paz o menino Jesus, abandonado nas ruas, divorciado da sociedade, existindo sem raízes. Conviveu com a morte como perigo imediato e encorajou o psicopata dentro de si. Cheira cola, não teme bomba nem polícia, ignora sua existência. O inferno para ele são os outros.
            Maria sua mãe fora estuprada aos quinze anos, abandonando-o nas ruas à mercê da própria sorte. E no seu nascimento a única estrela que brilhou no oriente foram rajadas de metralhadoras.
            Por esses tempos, tenente Herodes e seu grupo de extermínio estiveram em Soubibor chacinando crianças negras com sua higiene social nazifacista.
            A intolerância e a exclusão social percorrem as ruas que ladeiam sua morada. As ruas estão desertas de medo. Os derradeiros e mais renitentes freqüentadores de Soubibor - prostitutas, gigolôs, jogadores, ladrões, receptadores, traficantes, informantes de policiais e desonestos em geral asseguram essa malha promíscua que prospera sob a lei do silêncio e aos olhos da multidão.
            Nas ruas compreendeu o jogo de navalhas afiadas, o vergar do mais fraco, o estilhaçar das vidraças, o mundo das púrpuras e os frangalhos.
            Pegava maconha como quem se nutre do alento de morte para consumir-se em vida. Bebidas, fileiras de pó, o flavor opiáceo era uma mão amiga e caústica. Como todas as outras falsamente benevolentes, mas estranhas a seu mundo. Às vezes debatia-se em ataques convulsivos e surtos de loucura.
            No burburinho do dia, um formigueiro humano trilha o calçadão da Paz.
            Os trecheiros sujos e maltrapilhos mimetizam o cinza urbano com seus cognomes poucos humanos. Um deles, João Batista, um velho bandarra, louco e decrépito, vocifera as coisas de Deus nesses confins do diabo.
            O mundo deiforme não cabia em Soubibor.
            Preto Jesus envolveu-se com o trafico de drogas e armas, tentado pelas promessas de El diablo, chefe do tráfico na região.
            Nas casas de detenção, sentiu a hierarquia do medo, a imposição na dor. Criou a expectativa de ir além, sobrepujar a todos, comandar os becos da central. A paz não reina em Soubibor.
            Preto Jesus era considerado. Adquiriu respeito advindo do terror, roubava os ricos e mantinha os pobres sobre sua mira e tutela. Um Robin Hood citadino às avessas com o preceito maquiavélico de que os fins justificam os meios.
            Era o remédio do Paulão. O barraco do José. O uniforme para o Peladão. A banca de café. O usufruto de uma guerra sem fim travada dia-a-dia em suas travessas.
            Nunca rezou um pai nosso se quer. Não se apropriou do saber além do que a dor lhe ensinara.
             O olhar ácido, renitente. Um sorriso largo de boca banguela estendia o hálito de canabis ao cheiro das ruas. Tinha brincos de prata suspensos às orelhas grandes e cabelos encarapinhados. Vestia roupas caras e usava Rolex, seu upgrade estava mantido.
            Na praça da Paz, Preto Jesus reunia seus doze comparsas: Pedro Navalhada, André – o Sardinha, Thiago Malvadeza, João – o filé, Felipe – esqueleto, Bartolomeu Pantera, Tomé – Cicatriz, Matheus – o Mascote, Thiago Cavalão,  Tadeu – o Pamonha, Simão Matador e Judas – o X9.
            E dirigia-se a eles fazendo escárnio de sermões do louco João Batista:
            - Não penseis que vim trazer paz à terra, não vim trazer paz, mas espada.
             Eu vim semear Joio no meio do trigo. Eis que vos envio como lobos para o meio das ovelhas.
            Preto Jesus criou seus próprios mandamentos, pois o mundo deiforme não cabia em Soubibor. Tinha a navalha como um Deus e sua Biblia, um três oitão, convencia qualquer um a rezar por sua alma e salvação.
            Via com orgulho as fotos no jornal e os versos de repentistas contando sua saga do mal:
“Preto Jesus
Não teme polícia, nem Pilatus,
Põe tudo num só prato
E faz um caldeirão.
Nunca fez água virar vinho,
Mas fez dinheiro de granfino,
Pagar o prato do povão.”
            O governador  Pilatos fazia vista grossa diante do poder adquirido pelo bando. Ninguém se atrevia a invadir os domínios de Soubibor.
            A esta altura, Preto Jesus conheceu Madalena a rainha do baile funk que lhe pareceu imperiosa, orgulhosa, exigente. Uma mulata de bela altura, de grandes olhos negros e cabelos crespos ondulados. Era-lhe um desafio subjulgar sua imponência.
            Abandonou-a depois de alguns meses, viciada em crack e heroína, decrépita e indigente.
            Mas o mal semeado em Soubibor sempre retorna infinitamente maior. E sua condição de consumidor inveterado de cocaína o transformaria numa paranóia ambulante com mania de perseguição.
            E ali mesmo, na praça da Paz, encontrou sua cruz, morto por balas que o julgaram e o condenaram a inexistir.