MÚSICA



ARREBOL DO AMOR

                                                            Gilberto Felinto


Procurei -te em vão
nas estradas tênues do sonhar
pelo céu azul pelo mar além
onde o querer bem me possa estar

nas velas da angústia
dei volteios na cerração do amor
novas aventuras de um corsário
afogado em rios de ilusão
que desaguam sal e lágrimas
no imenso arrebol do amor

procurei-te em vão
nas turvas correntes do amor
diletante navegante que sonha aportar
em algum lugar
viver a sonhar com o mar
em algum lugar
viver a cantar o amor

nas velas da angústia
fui o vento insolente
sempre em frente
sempre enfrente
o seu naufrágio de amor
afogado em rios de ilusão
que deságua imensidão
num mar de sonho e cor.

















O TOM DA MANHÃ(samba I)
Gilberto Felinto


O dia bebeu a aurora com a sede do sonhar
O samba entendeu que outrora a lua era de minguar
Viu o sol dormir a nostalgia do ocaso
Mas virou a mesa e batucou um rito de felicidade

O samba não soube no sono se enclausurar
teceu dissonâncias na magia em coro
decoro não tinha nenhuma arrogância
apenas o acorde acordado gritando suado
é tempo de amar

Na verdade todo samba tem o seu sonhar
A cuica chora aflita decora vive a ressoar
Violão plangente ataca de frente a voz e o afã
delira estridente seu canto insolente no tom da manhã
CHEGA AÍ(samba II)
Joel Cantão-Gilberto Felinto


Chega aí, que a manhã tá calma de marés
Veja bem que delírio tem a sua fé
tão assim o destino casa o amanhã
é feliz quem tem sangue quente de sonhar

Veja bem que a manhã é branca de esperas
que o acaso trace o tom de céu azul
nesta espera enfim eu e você
desse sonho nunca acordar

Chega aí, vem brincar cadente o violão
nessas cordas tristes vem bailar
dá o tom e me espere viva me reluz
nessa eterna fantasia que é cantar

Pode esperar que a vida dance livre
pode sonhar que a música cadencia
pode beijar as incontidas paixões
que é noite de alegria

Pode querer o mundo abraçar
pode abarcar o sonho e ver o dom
sempre tem mais quem mais espera da vida
que a noite é pura fantasia


O DOM DE AMAR(samba III)
Gilberto Felinto


Se você tem um amor
e tece o dom da espera
é penélope valente
esperando seu desgraçado heroi
de barba desfeita
consumido na noite bebendo bordéis

Ou não é esse amor
primavera de sonhos
Já cansada nem dorme à noite consumida
por piratas saqueadores de sorrisos

Ou não é esse amor
por ventura o que queria pra sí
um cavaleiro preso
em sua própria armadura
com seu elmo de incertezas
lutando contra moinhos de ventos
tão seu tão só dom quixote infeliz

num cigarro de esperas
de cinzas e sonhos
consumindo alquimias banais
é você e o amor
e somente o amor nos faz

se você sabe amar
saberá acordá-lo da dor
transformar seu herói seu amor em manhã poesia
se voce sabe amar
saberá enfrentar dissabor
repintar seu herói transformar o seu dia


DEIXE SAMBA LEVAR(samba IV)
Joel Cantão-Gilberto Felinto


Se sentires o sonho minguar
hás de crescer tua euforia
deixe o samba levar a vida bamba à fantasia

a beleza e o saber prosperar
hás de estampar sua alegria
deixe o samba e a vida mudar a poesia

se o mundo a breve morte pode desdenhar
toque teus preciosos dons em tons inteiros
se a noite ateve a dor e quis enclausurar
trace teus dadivosos sonhos verdadeiros

se sentires a dor se assanhar
hás de multiplicar tua magia
deixe o samba arraigar traçar a melodia

se na chama do amor se queimar
hás de atear o fogo à revelia
deixe o sambar sambar amar quanto querias
ANTEONTEM JARDIM(samba V)

Gilberto Felinto



Suas imagens que amei revejo só

tudo que de mim se faz lembrança espera

hoje a saudade que sou aumenta o nó

sofro outra vez as agruras do que era



troféus não guardo do amor

sonhando assim

quem dera somente teu ficasse agora



memórias doces de nós

começo e fim

lágrimas acres que à boca a saudade renova



suas imagens que amei agruras tem

meu anteontem jardim cresceu rumor

murmúrios quentes que um dia aplaquei

jazem saudades e esperas duro fim






MIGALHAS DE AMOR(samba VI)

Gilberto Felinto


Todos os corações tem anseios
Todos os corações ornam fantasias
a alma cai no esplendido regaço do sonhar
e em atenção ao meu amor somente
faço um samba que o sol na alma desmancha

triunfante esplendor que me faz criatura
sem escudo
nem santo protetor
criador das migalhas de amor
vagando luz na noite escura

todos os corações tem seu fugor
seu furor de paixões sua aventura
e em razão dessa ilusão crescente
faço um samba que a lua o sonho enternece

triunfante esplendor minha arquitetura
sem lança
lançado na dança da esperança
criador de migalhas de mim
vagando enfim na cara dura.


LABORIOSO SAMBA(samba VII)



Joel Cantão-Gilberto Felinto



Com laborioso apuro fiz um samba

as horas que em mim transita a cor

o primor que todo olhar namora enfim

e destila o dom e arremete a dor



egoisticamente quis te-la pra mim

que o inverno transmuda em plena aridez

que o estio povoa aviva e reluz

que a tudo encarcera no simples olhar



fiz antalgicamente um verso pra dor

não doer tão doída em minha altivez

que perdí ante esse teu vivo esplendor

mendigando sorriso e um pouco de amor



com laborioso afeto escolhi o tom

que te adorne inda sol semente e luz

que me renda um olhar terno e feliz

que me faça em voce tudo que sou


?

























MANCHAS DE SOL(samba VIII)

Gilberto Felinto



Se viveres depois do nosso dia

uma paixão

onde brilhou assim meu sol de sonho e de suor

se beberes assim de outro licor

uma emoção

o meu amor viverá manchas de sol na alma



se cantares que fores sequer uma canção

a outros ouvidos soará que algo me diz

se em teus sonhos sussurar outra emoção

mísero de mim acordarás vazia e só



posto que não somos dois apenas um

posto que gemeos no amor vagamos luz

não traga manchas de dor ao nosso céu

espere a noite dormir a nossa dor



se achas meu estilo de samba diserto

pois que sonhas o calor de uma paixão

posso criar um samba consonante com o teu prazer

se achas meu estilo melodico e terno

pois que sentes a minha aflição

posso deixar o samba a emoção levar desdizer
NA ESTRADA DOS SONHOS(samba IX)

Gilberto Felinto
Que duro sonhar é o meu por essa estrada
de infinitas batalhas o dia se faz
pra buscar essa paz em mim sonhada
crendo infeliz que voce não mais está

entre tantos sentidos e anseios
labirintos de nós que a vida encontra
pra saber em que o ideal consiste
é preciso aprender como se sonha


que árduo sambar é o meu na avenida
que infinitas cadencias a noite me traz
pra nutrir esse dom que se revela
é preciso ser mais é preciso ser mais

entre tantos deleites e conflitos
o que resta do amor revela o samba
pra saber em que o ideal consiste
vivo sempre em corda bamba
MARULHA O SAMBA(samba X)
Gilberto Felinto



Um marulhar de serpentes
num mar evasivo
uma paixão atrevida
a gente encontra essa gente
perdendo o sentido
da vida
deus e o diabo entrementes
não rangem seus dentes
empatou a partida

o mundo canta pra gente sonhar e sofrer
entre dilúvios de espumas e vasta ilusão
nesse atol de impurezas só pede perdão
quem se deu por vencido


eu atrevido na vida sambo a ilusão
atrás da porta abatido
meu sim e senão
o não espera acolhida
seguimos a sós
o dom da vida é somente o dom de viver

eu de mistérios cansado
bebo a vastidão
desse olhares febrís
vezes desponta o azul
quero colher colibrís
onde dorme a razão
sou homem e deus enfim