ROMANCE




A LENDA DE MANÍ
PARTE I

          Manihot teve um sobressalto quando seu pai Paul Simon, arqueólogo e matemático americano emergiu das águas gélidas do lago espelho da lua na foz do rio nhamudás, onde segundo a lenda, as guerreiras amazonas icamiabas,escondiam seu amuleto mágico muiraquitã.
          Seu pai parecia ter achado alguma coisa.A curiosidade mordia-lhe, intempestuosamente, unida a satisfação de participar daquela grande expedição arqueológica subaquática.
         Fez-se encontradiça ao pai, e puxando-lhe pelo braço fê-lo sentar-se adiante  no convés; por alguns segundos o fitou ternamente.seu sorriso trazia um misto de admiração e respeito pelo seu compromisso científico e sua insistência na busca do El Dourado, o país das lendárias guerreiras icamiabas, onde se encontravam as previsões das Adagas,guerreiras sonhadoras sensitivas,videntes,que escreviam o calendário astrológico dos povos  indígenas.
          Paul repetidas vezes, havia-lhe contado que no passado navegadores espanhóis haviam encontrado e combatido as guerreiras.
          “No século XVIII , a região do alto Orinoco – rio Negro, foi integrada ao programa colonial Espanhol como resultado do movimento de expansão de grupos interessados na busca do El Dorado. Os sonhos do El Dorado sempre apontaram para o centro misterioso do continente, onde supostamente estaria o lago espelho da lua das icamiabas.
          Em 1539, o padre dominicano Gaspar de Carvajal, encarregado como escriba na expedição de D. Francisco de  Orelhana, conta que estiveram no sonho de descobrir e conquistar a lendária cidade de El Dorado.Mas este sonho de conquista virou pesadelo,muitos morreram de fome, tiveram de comer raízes. Após muita caminhada atingiram uma cidade onde havia casas laterais e estatuetas de ouro de mulheres guerreiras.chegaram a uma estrutura central, onde havia um círculo de cristais, como local de oferenda aos deuses. Mas foram rapidamente surpreendidos pelas icamiabas, as mulheres sem maridos.A vida social não incluía membros do sexo oposto, que eram capturados para servir de reprodutores,nada mais. Com a previsão das guerreiras Adagas mantinham a gravidez das filhas mulheres. Os pais eram liberados e de olhos vendados perdiam o caminho de volta.Estes eram presenteados com o amuleto muiraquitã, que eram moldados pelas guerreiras. Orelhana combateu sem sussesso, o padre teve o olho vazado no combate e a maioria de seus homens morreram; o rio local foi batizado de rio Amazonas”
          Paul coibiu-se do equipamento de mergulho.parecia preocupado, ensimesmado, assustado com o porvir. Não lhe parecia o pragmático e prolixo, velho Paul que conhecia.
- Encontrou algo não foi?sonhei de novo com o amuleto - indaga, ajudando com o equip amento de mergulho.
          Paul respirava compassadamente e enquanto se enxugava, abria uma lata de refrigerante, emborcada num só sorvo.
- É um muiraquitã legítimo ? tem algo com os meus sonhos ? novamente Manihot.
         Em vez de verbo só um olhar penetrante ao longo da perspectiva do leito limoso do rio.
          Naquele momento uma névoa densa era levemente conduzida pelo vento, dando um aspecto misterioso e sóbrio aquelas paragens.
- vai escurecer, vá para a cabine e depois conversaremos ?
          Enquanto atraca o leme com suas fortes manoplas e mordisca pupunhas cozidas, Maní repensa sua história.
          Nunca fora uma garota comum, até porque seu porte altaneiro fazia dos outros meros liliputianos. Além disto, tinham seus longos cabelos negros e lisos e sua tez trigueira à feição indígena.
          Lembrava o quanto fora difícil para Paul chegar até ali, desde os primeiros contatos com os aborígenes.
          Abriram picada no mato,quinze quilômetros a dentro, ao fim da qual colocaram o primeiro tapirizinho de brindes, na banda direita do uaça.
          Em poucos dias , os índios haviam quebrado o jirau e todos os brindes.Depois ,passaram a ouvir o rumor de índios na mata,à noite,imitando pássaros e batendo as saponemas.
          Na próxima tentativa na mesma picada,porém mas próximo da margem,os índios levaram todos os brindes e não deixaram qualquer objeto de retribuição.Continuaram os rumores na mata.E enfim,na terceira tentativa,atiraram flechas ao alto em sinal amistoso.E na quarta,gritaram da margem,expuseram rostos e bustos dentre a folhagem.Vieram em pequenos grupos,atravessaram a margem,levaram remédios,açúcar,sal e tabaco,e permitiram as primeiras visitas a aldeia.
          O amuleto ali pendurado à sua frente como a conduzir sua peregrinação ao passado.O pêndulo oscilava compassadamente como a revisitar o tempo.Era assombrosa a certeza de que sua vida possuía relações intrínsecas com este novo universo que se lhe aparecia.Mas toda essa trajetória ainda lhe era motivo de lídimo orgulho.
                    Pensou porque não nascera índia.Amava suas tradições,a natureza e a naturalidade de suas ações.O apego a seus rituais e costumes.Sentia-se compungida com a forma com que eram tratados os índios, os verdadeiros donos dessa terra,rechaçados de seu próprio chão,humilhados,vilipendiados e mortos.
          Tamborilava o leme com os longos dedos afuselados,nervosamente,e ruminava placidamente seus anseios...aquele amuleto...seus sonhos.
          Depois de alguma relutância, voltou a cabeça vivamente na direção do amuleto e pôs-se a fitá-lo.Um desassossego invadia-lhe a alma,rememorando os antigos pesadelos que a perseguiram durante toda sua vida.O objeto misterioso parecia conduzi-la de volta ao seu passado.Novamente as imagens oníricas lhe vinham como um sonho acordado,tinha a sensação de estar suspensa no ar,numa leveza extraordinária,como se o espírito quisesse viajar mundos distantes ainda desconhecidos,e a consciência estivesse a observar o cérebro arrumando a estante das memórias.
          Seus pesadelos sempre reuniram alucinações visuais quase palpáveis , convicções de que aqueles fatos absurdos eram reais,bizarrice,emoções intensas,observadas por metáforas.Como uma regressão ao nível sensorial,um espaço para realizar desejos inconscientes reprimidos.
          E vinham –lhe imagens distorcidas,de uma criança deitada sobre um objeto oval transparente,ladeado por cristais reluzentes. Muitas mulheres altas,vestidas de guerreiras amazonas com arco e flecha em punho,cantavam numa língua estranha incompreensível,como que se despedindo daquela criança.
          No mais,seus sonhos traziam,uma mata densa e impenetrável,onde lutas eram travadas pelas amazonas e homens brancos; devastações,queimadas,exploração de minério,assassínios e genocídio do povo indígena.
          Lágrimas desceram-lhe o rosto perseguindo-lhe as belas formas da face,seu corpo altineiro de dois metros e quinze centímetros,parecia não ter forças para suportar o cansaço, e num irremediável desespero gritou intensasmente.
          O grito ecoou estrondosamente na floresta.
          Paul a encontrou no chão sobre o assoalho do barco; parecia saber algo mais sobre o amuleto mágico das icamiabas. Ferviam-lhe as lembranças das muitas expedições a hiléia amazônica.Soergue-a com uma força descomunal quase estranha ,não fosse seu talhe gigante e a conduziu ao camarote, reclinou-se sobre a cama, e a deixou deitada, enquanto verificava seu pulso e respiração.Parecia ter sido somente um susto.
          Guardou o amuleto numa caixa onde dispunha de outros objetos,trancou-o à sete chaves. Passou a olhar ao derredor,como que culpando-se de tê-la colocado em perigo,depois criticou-se acerbamente por tê-la mantido em segredo; aquele achado haveria de pô-la frente a verdade, não podia mais esconder suas origens.
          Seus olhos iam avidamente na direção da caixa onde ocultara o amuleto, as feições decompostas ferviam-lhe as têmporas num desejo impulsivo,ouriçado de imprecações e remorsos,levantou-se estremunhado e pôs-se a abrir a caixa.
          Entreabindo os olhos acordara ainda sonolenta e assustara-se com um vulto alto a esvair-se no ar,vozes surdas,ao longe.
          Tenta gritar mas parecia sufocada,enquanto adentro invadia uma luz intensa e incomensurável.Tenta se mover mas estava presa a algum tipo de magnetismo,até que a luz some repentinamente.
   -  Pai! Pai! Com quem conversa? Levanta-se Manihot apreensiva.
- Né’né’enhô Marikãteropere – repetia transfigurado,num êxtase profundo.
- Pai! Pai! Acorda – insistia assustada.
-A’tiro de Pokãti Merãntipã – dizia com voz gutural e estranha.
          Manihot pega um papel da mão do arqueólogo que começa a entrar em choque,púrpuras e edemas por todo o corpo,áreas de equimoses,espasmos e movimentos convulsivos,paralisia dos músculos respiratórios e asfixia,Paul estava morrendo de modo bárbaro em plena posse de todos os sentidos.
          Ela arranca a flecha fincada em seu ombro mas sabe que se trata de envenenamento por curare.Os índios costumavam fazer a decocção,decantação e cozimento de cipós para envenenar suas flechas.

                                                                                         Gilberto Felinto